Dialetos, biscoitos e bolachas

23/05/2014 às 9:47 PM | Publicado em Papo com o Leitor | Deixe um comentário
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Ah, a velha guerra entre o certo e o errado. O normal e o anormal. O favorecido e o desprezado.

E não estou nem indo longe. Não precisamos discutir sobre questões delicadas como política, religião ou sexualidade. Basta oferecer um bixxxcoito a alguém ou quem sabe uma bôôôlacha. Porque, sabe, há quem ache que confundir esses dois dá cadeia.

É curiosa essa dicotomia que Rio de Janeiro e São Paulo formam em variados aspectos. Por vezes, engraçada; por vezes, irritante. Relações assim devem existir em todo o mundo, quem sabe Nova York–Los Angeles, ou Costa Leste–Costa Oeste; o fato é que rivalidades jocosas e saudáveis sempre existiram e sempre existirão.

Entretanto, é meio preocupante que certas ideias sejam levadas a sério. Quando um paulistano acredita, de verdade, que não possui um sotaque e os cariocas falam errado, vejo que há um problema em como a sociedade se configura. É verdade que São Paulo é um polo de enorme importância, não deixa de ser referência para quase tudo, inclusive para o modo como repórteres têm de se enunciar.

Mas São Paulo não herdou tudo. Literalmente não herdou tudo. Talvez um “r” bonitinho, mas o resto ficou espalhado por outras regiões. Herdou o que de quem? A língua, claro, de um pequeno país na península Ibérica que por pouco não conquistou os sete mares (e de outro pequeno país de formato semelhante a uma bota, mas esta é uma conversa à parte).

Calma, que eu não vou colocar ketchup na pizza de vocês, amigos paulistanos — contanto que não obriguem ninguém a comer cachorro-quente com purê de batata. Brincadeiras à parte, estou apenas expondo um lado da questão. Basicamente, como os portugueses falam em comparação conosco.

Já perceberam que o “r” vibrante e alveolar pronunciado na capital paulista é parecido, senão igual ao falado na santa terrinha? E que, igualmente, o “s” chiado dos cariocas é bastante similar ao deles? Se todos herdamos partes da língua original, como podemos afirmar que algum de nós é isento de um sotaque ou dialeto regional? Ou que algum é o mais certo? Porque, se precisássemos apontar um certo, só poderia ser o dos portugas. Que, pasmem, também têm suas diferenças linguísticas.

Variação linguística. Algo que deveria ser mais bem divulgado e estudado. Graças a ela, podemos bater no peito e dizer “bolacha” ou “biscoito” com orgulho, sem medo de errar. A língua é uma coisa viva. Ah, preciso repetir: a língua é uma coisa viva.

Admito que eu adoro dicionários. Aprender novas palavras, usos interessantes para palavras simples do dia a dia e até mesmo ter uma ideia para alguma história. Só que dicionários não são perfeitos. Devem ser utilizados como referência, sim, mas creio que, no fim das contas, eles é que têm de se adaptar a nós. Ou, no caso, à língua.

Em todos os dicionários que consultei, fica claro que o termo “biscoito” seria o ideal para descrever aquele doce redondo com recheio no meio, bem como aperitivos similares. “Biscoito” seria um termo geral, que vale tanto para os recheados quanto os de água e sal, enquanto “bolacha” seria usado para nos referirmos a este último.

“Então os cariocas sempre estiveram certos!?”

Sim e não. Como a língua é viva, muda e se adapta, “bolacha” já se consagrou entre paulistas e pessoas de outras regiões, adquirindo um novo significado. Em minha opinião, cabe a linguistas e a novas versões de dicionários levarem em conta esse fenômeno.

Em última instância, creio eu, o bom senso prevalece a tudo — leis, convenções morais, regras idiomáticas. Afinal, essa é a única forma de haver mudanças. Quando se questiona o que parece estar gravado em pedra.

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